hermes: tu mais que humano, tu indócil,
tu que vês primeiro, tu que odeio,
tu que a eternidade não afaga,
diz de meu pai a derrocada, diz o que prefiro ser mentira,
diz, pretenso homem, ser revolto,
dá-me obediência, dá-te a zeus, dá-te ao perdão.
prometeu: vai-te, hermes, ministro da arrogância,
vai-te ao pai que não me guia,
vai-te àquele cujo certo fim te calo,
fico cá, ao afago das rochas e das ninfas,
com a memória do meu brinde à humanidade,
meu tesouro que jamais violareis.
hermes: todos os fogos o fogo que roubaste
e que cá te fez acorrentado
na mais orgulhosa das desgraças;
pára com essa humana rebeldia,
lembra-te de zeus, que tudo pode,
solta-te os grilhões com a obediência
prometeu: prefiro a lenta angústia, a morte em vida,
já que não existe morte em meu destino,
a servir àqueles que em perfídia
em recompensa a meus leais olhares
puseram-me na víscera uma águia
e de bornal o amparo de um rochedo.
hermes: caso um dia tu estivesses onde zeus,
caso um dia, prometeu, fizesses lei
tudo o que demonstras nessa ira
inútil como as súplicas de io
que seria de nós todos e do império
sob a égide maldita de um raivoso
prometeu: caso um dia eu estivesse onde zeus
garanto que dos céus não cairia
nada que não fosse justo e grato.
de modo que o que devo ao pai de ti
é muito, dada a condição que vivo,
e vejo-me obrigado com um morto.
hermes: não zombes, prometeu, de quem domina,
não zombes, não te basta esta desgraça?
não vês que o teu silêncio e a tua ira
em nada mudarão teu fado amargo?
não dizes o que o pai tanto precisa?
não dizes quem lhe há-de destronar?
prometeu: esqueces-te, qual fosses um menino,
e nesse esquecimento zeus te segue,
que mesmo com as dores mais agudas
e vindo ventos, raios e tormentas,
eterno sou, e sabes, eterno como ele
não será na vã glória que sustenta.
hermes: que fúria desolada, que ousadia
manténs assim teu próprio corpo em pena,
mas segues com tua amarga teimosia
expões as aliadas a igual sorte.
não vira eu que ao pé da rebeldia
repousa em teu caráter o egoísmo.
prometeu: de nada valem as ameaças, sou um sempre,
de nada esse tremor que a terra acusa,
de nada ameaçar com o ódio as ninfas,
mesmo a dor que agora sinto em demasia
em nada mudará o que ora calo,
mas isso vós vereis quando for tempo.
hermes: vou-me, já que negas a prudência
mas faço-me de ti, o que antes vê:
saibas, prometeu, do humano amante,
que a espécie que ajudaste a pôr em marcha,
num futuro que verás, já que és eterno,
ignorará das prendas as benesses.
prometeu: que dizes dessa vez, ó odiado,
que tipo de calúnia assim levantas?
acaso crês que o homem, ser que amo,
imitará teu pai e sua herança?
não vês o quão incrível é tal mentira?
não vês que assim não cedo, mais resisto?
hermes: não creio, prometeu, antes afirmo
que a bela espécie humana não acaba
em nada mais que um sólido fracasso.
não vês, o amor cega-te e surpreendo-me,
mas o porvir de tua espécie amada
é bem pior que o que dizes de nós.
prometeu: ó mãe, ó éter, a dor agora sinto,
após essas palavras tão terríveis.
hermes foi-se, mas fica o medo:
serão essas calúnias? profecias?
terá o fogo algum valor de morte?
será o humano tudo o que não vejo?