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Entrevista de Marcelo Gargaglione a Sebastião Edson Macedo

 

SEM: Eu queria começar a entrevista te perguntando como você situa um trabalho expresso através de uma música que não é convencional dentro do panorama cultural atual, não digo brasileiro, mas em termos de conjuntura. Como a música de na mesma situação de blake se coloca diante das demais expressões estéticas do momento?


MG: Com um grande sentimento de inadequação, pois existe uma série de imposições mercadológicas que nivelam profundamente por baixo o nível das produções artísticas. Problema que não é exclusividade do Brasil. Como podemos situar essa música diante de um panorama onde o único propósito é o objetivo comercial mais torpe possível? É uma ótima pergunta. O que posso dizer é que as pessoas que estão por trás dessas estruturas não têm recursos intelectuais para entender o que seja uma obra de arte, no caso de música, o que é desenvolvido com erudição e uma série de critérios. Falta o mínimo de refinamento para isso. São pessoas que estabelecem uma relação com arte leviana. Ainda falando especificamente a respeito dessa área, lamento demais que no momento só exista espaço para os inúmeros farsantes que são considerados “artistas”, sejam eles “fabricados” ou não. Existe um gueto sim, mas o gueto para a inteligência, o resto é mainstream, é show business, utilizando o anglicismo das majors. A nossa música se opõe a tudo isso radicalmente, mas sem panfletarismos. Por suas características, pelas escolhas estéticas que foram idealizadas, pela relação criteriosa que ela estabelece com outras expressões artísticas, como cinema, literatura e artes plásticas. Mas a questão é complexa. As grandes corporações midiáticas, por exemplo, dialogam muito bem com as indústrias que trabalham com arte, impondo seus esquemas manipulativos e toda a sorte de “produtos” de baixíssima qualidade ou mesmo aqueles que são muito bem “maquiados”. Uma das conseqüências disso é o processo de imbecilização coletiva que aí está instalado. O discernimento crítico acaba sendo praticamente inexistente. Poucos percebem com lucidez a diferença entre arte e engodo. Lembro que uma produção de arte pode influenciar uma série de aspectos comportamentais. É claro que tudo isso está inserido num contexto mais amplo. A falência do sistema educacional, a falta de alternativas no campo político, as enormes desigualdades sociais, o caos formado, ou seja, uma sociedade  muito doente, já na CTI, que vive uma espécie de pseudo-democracia. Um circulo vicioso, em que todos esses males estão amalgamados. É preciso encontrar alguma saída. Pessoalmente não consigo vislumbrar nada.


SEM: Eu gostaria que você falasse mais a respeito dessas questões mercadológicas que te incomodam...


MG: Existe um problema muito grave, imperceptível ao senso crítico em geral, que é a quase total ausência de inteligência, ousadia, e, principalmente,  experimentação no cenário musical atual. Fico perplexo quando vejo certos artistas com suas posturas “intelectualóides”, e aproveitadores iletrados, mas  bem situados na indústria fonográfica, na produção de shows e festivais, e nas mídias, afirmando que o momento nunca foi tão bom, que estão acontecendo  inúmeras coisas interessantes, várias tendências (absurdas), e que existe  música inteligente sendo feita no Brasil e no mundo. E então, citam o que de pior possa existir. O fenômeno que ocorre é justamente o contrário. A música - dos anos oitenta para cá - perdeu totalmente os seus conceitos de “obra de arte” e virou um mero negócio sujo, com grandes interesses comerciais envolvidos. Não sei se isso é excesso de cinismo, por estarem bem posicionados dentro do jogo, ganhando muito dinheiro, ou se realmente essas pessoas apresentam profundas lacunas intelectuais que as levam a fazer comentários tão estúpidos. Talvez exista a mistura de dois fatores: desonestidade e uma imensa ignorância. Características – por exemplo – dos executivos dessas multinacionais, que impõe uma ditadura mercadológica de péssimo gosto em detrimento da inteligência e da elaboração, pois o único objetivo deles é a lucratividade mais vil possível. Não existe o interesse de que a população tenha acesso à música de grande qualidade. Quanto maior for o adormecimento, maior também será a margem de manobra para a conquista de altas cifras. A arte que leva ao questionamento é incômoda à recepção em geral, e extremamente perigosa e desvantajosa para eles em todos os sentidos. Toda essa gente reunida, com as suas observações inaceitáveis, acaba contribuindo para uma complexa rede de permissividade, que legitima consequentemente as tais tendências.
É deplorável o nosso tempo. Parece o oposto total do Renascimento, um dos períodos mais brilhantes da humanidade nas artes. E isso não é niilismo da  minha parte. Estamos sim é vivendo numa era de impressionante miséria cultural, com o prevalecimento apenas de interesses financeiros (sempre com mega-corporações envolvidas), onde são poucos os que possuem embasamento estético para conceber um excelente trabalho de música. Há muitas décadas atrás um artista tinha interesses múltiplos. Cito por exemplo, filosofia,  antropologia, psicanálise, etc. E refletia de forma consistente sobre o seu papel dentro de uma sociedade. Atualmente, a falta de formação artística e intelectual é avassaladora, vale rigorosamente tudo. Quase ninguém tem referências culturais relevantes para produzir arte. É um cenário em que qualquer  nome com postura pretensiosa, ao receber a falsa denominação de “grande artista” sem ser, se julga no direito de estar envolvido com música num patamar inexistente, pois é “legitimado” por críticas desonestas e provavelmente em muitos casos, compradas. Constantemente vejo esses tais nomes falarem asneiras imensuráveis sobre questões que não tem relação alguma com a atividade musical. Isso se torna mais patético ainda quando são considerados pela opinião pública “cultos”, “intelectuais”, etc. É claro que também contam com o apoio vitalício desse pessoal “muito bem estabelecido” que eu citei. Aliás, parece que qualquer um atualmente se julga no direito de ter envolvimentos com música. Exemplo disso são os milhares de “grupelhos de rock” que infestam esse país. Fico impressionado com a linguagem rasteira dessa gente. O panorama é desolador. As porcarias são inacreditáveis e intermináveis. Indivíduos que produzem lixo e não música (falso funk – algo tão abominável que chega a ser indescritível -, axé, falsa música sertaneja, música romântica brega, música brega do norte do país, que é uma das últimas ondas, falso pagode, falso hip-hop e rap “de boutique”, música “eletrônicóide”, “reality shows” absurdos que promovem falsos artistas, programas bregas de calouros, que cínicamente vendem a idéia de que estão lançando “novos valores” com qualidade, quando acontece exatamente o contrário, péssimos repertórios e arranjos a serviço de cantores – qualquer um pode cantar atualmente, não é? – sem nenhum recurso estético, etc. Falso forró, “samba de raiz”, na verdade deformações do que foi feito com brilhantismo por alguns compositores do passado, oportunistas que formam “grupelhos” para tocar péssimos repertórios – “covers” - de épocas lamentáveis, bizarrices que são confundidas com vanguarda, música pop de quinta categoria – hoje tudo é pop (e pobre) - e outras barbaridades inomináveis. Tudo isso tem a legitimidade das mídias, quando se tornam “produtos” muito rentáveis. Basta ver o que é apresentado de forma massificada em programas de auditório que sempre privilegiam o entretenimento baratíssimo.) E estes são transformados em milionários da noite para o dia (num país em que as injustiças sociais são imensas, em que milhares de pessoas passam fome e mendigam). E só o são porque existe o quadro de miséria cultural ao qual me referi anteriormente. E também ocorre no segmento que essas forças reunidas desejam apresentar como “sofisticado”, uma repetição de fórmulas que foram utilizadas até a exaustão num passado muito mais digno. Tenho a impressão de que esse processo é irreversível, não somente aqui, mas em quase todo o planeta, basta sintonizar as emissoras de rádio e televisão européias e norte-americanas para se chegar a essa conclusão. E tudo se torna mais dramático ainda quando percebemos claramente que é inviável – sob pena de destruir os interesses políticos e econômicos existentes (das grandes corporações, por exemplo) - uma revolução educacional, uma revolução cultural. Voltando à questão do senso crítico, até mesmo certos artistas (um ou dois) que você presumia que pudessem ter um alto nível de discernimento e isenção, estão fazendo ultimamente interpretações no mínimo equivocadas e concessivas, algo que já presenciei diretamente.


SEM: Parece existir um “jogo de cartas marcadas”, muito bem delineado...


MG: Existe, por exemplo, algo que chamo de “clubes fechados”, com suas devidas “turmas”, onde os eleitos são aqueles que atendem aos mega-interesses comerciais. Alguns desses “clubes” são as gravadoras que privilegiam parentes, amigos, e claro, lixo. Se o seu trabalho musical tem um caráter – digamos - experimental, o que muitos chamam de música contemporânea, você está fora dos “nichos” que eles consideram lucrativos. Música que seja realmente de vanguarda não interessa. Isso é uma ditadura de caráter econômico, invisível para o público em geral, até mesmo porque ele não está instrumentalizado, jamais perceberá essas “jogadas”, que são de bastidores. Para uma grande empresa te patrocinar, pouco importa o fato de que você seja uma nulidade “esperta” que faça apologia de drogas e péssima música. O importante é o que você representa economicamente dentro da indústria, os dividendos que são gerados com o seu “produto”. Certas premiações, para ilustrar o que digo, contemplam sempre os tais eleitos. O Villa-Lobos, se estivesse vivo, provavelmente não receberia esse tipo de prêmio armado por eles. Era de um nível elevado demais o que criava. Acho que o Cartola, sendo o grande compositor que foi, também não seria contemplado, ou até seria, provavelmente pelos maus motivos. A necessidade dos pseudo-intelectuais em afirmar uma brasilidade esquizofrênica é um deles. Mas o que essa gente desautorizada e elitista faz é elogiar e sustentar uma indigência que impede o acesso amplo do jovem que mora no morro da Mangueira ao Cartola, cuja origem é a mesma. Isso é de uma loucura total! Manifestação cultural popular na visão deles é imbecilizar, e, na verdade marginalizar cada vez mais as comunidades desfavorecidas, apoiando as atrocidades “musicais” que lá são desenvolvidas nos dias de hoje, sempre em nome de interesses escusos. Digo que chega a ser criminosa a defesa que figuras influentes fazem de uma anti-música – no pior sentido do termo - que está somente a serviço do banditismo.
O Cartola não é viável, tornou-se um “produto” muito sofisticado... muitos não devem pensar assim? Essa gente ignóbil e autoritária pratica uma espécie de “sociologia perversa e mentirosa de botequim”. Tentam estabelecer um compromisso social leviano com as comunidades, apenas para ampliar o seu raio de ação dentro do mercado, e atingir metas comerciais e de marketing  planejadas por seus empresários. Destarte, olham de cima para baixo sim, pode ter certeza disso. E a questão deles nem passa por um certo sentimento de culpa existente nas camadas economicamente mais altas da sociedade. São os responsáveis diretos por esse estado de coisas, travestidos de “pessoas  públicas que tem uma enorme compreensão social”. Nivelam a população por  baixo. Isso é muito vantajoso. Repetindo o que disse na sua primeira pergunta, pois vale a pena que fique bem claro, o verdadeiro “gueto” existente atualmente é o “gueto” para a inteligência. Um “gueto” totalmente fomentado por esse conjunto de forças. É o “gueto” imposto aos poucos que concebem música num alto nível, e em função disso acabam não tendo espaço algum para se manifestar. E é também o “gueto” dos desfavorecidos, que não tem o direito de conhecer música de verdade, que não tem o direito de ouvir e compreender, mais até do que ouvir, Cartola ou Villa-Lobos, que diga-se de passagem, proporcionava alta cultura para as massas com os seus projetos, justamente o contrário do que esses poderosos do tempo em que vivemos fazem, pois não possuem caráter e formação intelectual e humanística para isso. Hoje tudo é tão pavoroso, que estatísticas comprovam que menos de 1% da população escuta música erudita. A falência do sistema educacional ao longo de décadas teve uma importante parcela de contribuição, a música saiu do currículo escolar. O que vejo acontecer são em geral iniciativas com motivações institucionais e políticas quase sempre mal-intencionadas, inseridas numa espécie de “fetiche exótico” das classes dominantes. Quando alguém desenvolve algo dentro de uma comunidade de forma até válida, peca pela falta de visão. Raramente vejo nos projetos dessas organizações não governamentais iniciativas que incluam música erudita, pois é isso que pode realmente desenvolver do ponto de vista musical um jovem. E não “batucada” o tempo inteiro. A percussão acaba sendo vulgarizada. A música é um instrumento perigoso em mãos inescrupulosas, é fácil controlar e manipular o povo de várias formas através dela. Seus meios de veiculação permitem isso. Incluo aí também, além de tudo que já citei, a música falsamente religiosa produzida no Brasil (de gosto horroroso), equivocadamente chamada de “gospel”, que é uma coisa totalmente diferente e genuína nos Estados Unidos da América. Foi estabelecido nessa área um mercado paralelo de grandes proporções. Mercado que é controlado por organizações criminosas que fingem ser religiosas. Acredito que diante de todos esses quadros jamais conseguiremos democratizar os meios para produções musicais sérias, que apresentem uma linguagem estética arrojada e desafiadora. Digo de forma direta que a música produzida nos dias de hoje no Brasil (e porque não dizer, no mundo inteiro), incluindo todos os gêneros, exceto talvez o erudito e certas coisas no jazz, é uma música em geral de péssima qualidade. Não existem mais espaços para a riqueza harmônica, para a riqueza melódica. Presencio uma total escassez de inventividade, inteligência e sofisticação. De um lado você tem o lixo mais evidente, destinado à população em geral, e do outro, a falta de auto-crítica de quem não tem mais nada a dizer – muitos desses sequer tiveram antes - e puderam pelo contexto histórico em que sedimentaram suas carreiras, obter solidez no mercado, conquistando uma espécie de unanimidade cega, ignorante, e manipulada, somada à mediocridade absoluta do que intitulam como “novo”, quase sempre tudo muito ruim. É bom afirmar mais uma vez que em diversas situações o que é ruim está “bem maquiado”. Essa faceta do mercado difunde “produtos” medianos e previsíveis, que recebem um falso selo de qualidade. São meticulosamente formatados para atender as demandas das classes média e alta, que se consideram ilustradas, e acabam se tornando decisivas no processo de disseminação da boçalidade generalizada vigente.


SEM: E as leis de incentivo fiscal?


MG: Outro dia conversava com o meu parceiro a respeito dessa questão e  desenvolvíamos algumas reflexões. Quando uma determinada obra artística, de grande relevância intelectual, nada palatável, transpõe totalmente os limites impostos pelo mercado (onde tudo precisa ser nivelado por baixo, com o objetivo de gerar altíssimos lucros), essa produção, consequentemente incômoda, acaba não se situando em espaço algum, pois todos eles estão contaminados. Não seria papel do poder público, na chamada área de fomento à cultura, ampará-la? Algo que por sinal é comum na Europa. O que vem sendo feito no Brasil? Esse poder, seja ele municipal, estadual, ou federal, “lava as mãos” e “vira as costas” para tal produção, a partir do momento em que desenvolve leis de incentivo fiscal que irão apenas beneficiar “produtos” que sejam comercialmente convenientes para grandes investidores, pois os outros estão lutando por sua sobrevivência - num país que não valoriza a pequena e a média empresa - e mesmo demonstrando maior sensibilidade acabam não tendo os recursos necessários para investir em determinados projetos. 
Quais “produtos” contemplados com patrocínios seriam esses? Todos aqueles da área de música citados por mim nas duas perguntas anteriores, e também os das indústrias de cinema, literatura, teatro, etc, que passam por problemas semelhantes. Vou te dar um exemplo das dificuldades que nós dois vivemos:
Só conseguimos concluir a montagem do nosso projeto (CD, DVD, site, concerto de lançamento do CD) após três longos anos, obtendo patrocínios e apoios de importantes instituições italianas, num procedimento de mecenato totalmente espontâneo e fora das leis de incentivo, algo que não existe mais no Brasil. Tudo isso em função de nossas especificidades artísticas. As práticas distorcidas existentes são muito claras. Os grandes empresários só tem olhos para o lucro imediato. E os seus executivos de marketing apenas demonstram interesse em liberar patrocínio para o que esteja inserido no mercado, por todas as razões desonestas que já apontei nessa entrevista. Não importa, por exemplo, que a marca de uma empresa de grande porte esteja vinculada à uma iniciativa de quem produz música ruim, e se já não bastasse esse fato, incentiva o uso de drogas, exemplo ao qual me referi na pergunta anterior. Se tal iniciativa é altamente rentável, tanto para quem a produz, como para quem a patrocina, se a visibilidade é imensa e contínua, pois sabem muito bem como massificar, o fato disso não ter relação alguma com arte, e ainda contribuir para o estado de imbecilidade coletiva em que vivemos, não faz a menor diferença. Irão inclusive vender criminosamente esse “produto” como “grande arte”. Qualquer obra artística transformadora (e são pouquíssimas nos dias de hoje) é segregada, fica fora do jogo, os espaços estão completamente fechados. E aí, essas leis (que distorcem o verdadeiro significado da expressão “cultura”) revelam a sua verdadeira função, a de atender as terríveis demandas existentes, e somente elas. Leis que acabam sendo fascistas, na medida em que deixam artistas que deveriam ser imprescindíveis entregues à própria sorte, sem qualquer possibilidade de se expressar. O poder público - com essa postura - se isenta completamente de uma responsabilidade que deve ser sua, pois as práticas mercadológicas da atualidade são profundamente anti-democráticas e excludentes. Esse é um outro problema terrível, para o qual não vejo solução alguma.



SEM: Que outros paralelismos o teu trabalho comporta? Você fala de um diálogo com uma referência da poesia portuguesa contemporânea, que no caso é a poesia de Fiama, você fala de uma postura mercadológica em relação à música, você fala de uma escolha estética em detrimento de outra ou outras. Na verdade estou querendo pensar com você que paralelos mais o teu trabalho evoca e se existe um ponto para onde eles convergem...


MG: Acho que a sua análise foi perfeita. Não consigo no momento pensar em outros paralelismos. Você já citou os principais.


SEM: É difícil falar sobre a tua música? Qual é a dificuldade que você detecta como principal, como um divisor de águas, sendo a música já uma linguagem que por si mesma não se responde...


MG: Eu creio que é difícil falar a respeito da minha música a partir do momento em que ela se confunde com a minha própria vida. A partir do momento em que eu depositei nessa música muitas das dores, muitas das inquietações e experiências difíceis que vivi, a dificuldade de lidar com o mundo da forma como ele se apresenta, com todos esses absurdos, com essa incomunicabilidade nas relações humanas. Esse mundo conturbado, hostil, enfim, desumanizado.


SEM: Eu queria que você falasse um pouco sobre o teu trabalho de voz, trabalho que evidencia uma grande versatilidade. Como você pensa essa voz, como ela é trabalhada, como ela se situa dentro de um CD que brinca entre o heterogêneo e o homogêneo?


MG: Procurei adequar o meu canto às exigências dos textos, encontrar a medida correta. Muitas pessoas acabaram detectando um certo caráter cênico no trabalho que desenvolvi. Mas o fundamental é que teria que existir um enorme rigor estético, estive atento a esse fator o tempo inteiro, foi interessante criar uma série de nuances. E é claro que também procurei utilizar recursos técnicos.


SEM: A tua interpretação transita entre o lúdico, o recitativo, até o grito, até o espasmo, até o melódico no sentido tradicional e o melódico, por assim dizer, século XX. Você a desenvolve de uma forma extremamente curiosa, por que é possível não só pensar em imagens evocadas pela própria construção da música, como evocar uma teatralidade da interpretação, um trânsito de personas pelos vários registros vocais. Como é esse trabalho no CD? Como isso se coloca no CD? Como isso se coloca na música? Que intenções? Que jogo está sendo feito através disso?


MG: As nossas ligações com o chamado cinema de autor e a ópera talvez expliquem o que você observou em minha interpretação. Faço essa análise sob determinadas perspectivas estéticas. Além disso, sempre estive atento ao trabalho dos grandes intérpretes. Acho que buscamos o equilíbrio necessário para expor todos aqueles estados de vida presentes em nossas criações, as dinâmicas que eram adequadas. É interessante comentar que nunca tivemos intenções performáticas, isso é curioso diante das observações que já foram feitas por pessoas que ouviram o disco. Claro que a subjetividade é um elemento decisivo, é um fator que talvez estabeleça um certo jogo cênico, mas não deixa de se unir à técnica vocal. Diria até que somos “cerebrais” quando organizamos as idéias que foram pensadas no momento inicial do processo de composição. A direção musical do Luis também foi fundamental para obtermos esse resultado. Aproveito para também mencionar a imensa contribuição dos extraordinários músicos que trabalharam conosco, Luizão Bastos e Michael Machado.


SEM: Pensando um pouco no impacto que a tua música tem sobre o ouvinte comum, que está acostumado a consumir um produto formatado e de fácil digestão, ela se coloca fora do alcance desse ouvinte. Como você pensa a receptividade desse outro, por exemplo, tanto no tema “um outro” como num sentido mais geral? Que diálogos você está estabelecendo com a recepção do teu trabalho? E aí se inclui a crítica, e aí se inclui o ouvinte preparado, e aí se encontra o ouvinte despreparado: Eles estão todos juntos ao mesmo tempo...


MG: O público comum talvez não possa identificar certos aspectos estilísticos em nossa música. Mas isso não significa que a interlocução seja inviável. Concordo com o Luizão Bastos quando ele diz que se o acesso da população em geral a trabalhos verdadeiramente artísticos fosse democrático, haveria alguma resposta. As pessoas que vivem massacradas, em função das injustiças sociais criminosas que existem nesse país, quando têm algum contato com música erudita, por exemplo, tentam na maioria das vezes buscar algum entendimento, alguma interação. A falta de estímulos e oportunidades acaba inviabilizando tudo. O problema maior é o chamado público comum proveniente da classe média. Esse muitas vezes é passivo, aceita com obediência a impressionante quantidade de lixo que é imposta pelo mercado. Quanto à crítica, ela é fundamental, desde que seja isenta e inteligente. O que posso dizer é que não gostaria de restringir a minha música somente a um tipo de público privilegiado pela erudição. São as perversidades do mercado que acabam impondo isso.


SEM: Você fala, por exemplo, em caráter cênico e fala também sobre a idéia de morte, experiência de morte que perpassa o teu trabalho. Essas duas coisas estão extremamente ligadas com a idéia de tempo e os tempos das músicas são longos. E o teu trabalho exige um tempo de audição. Que proposta é essa que lida fundamentalmente com o tempo? Formulando de uma melhor maneira, o que vocês pretendem ou o que está em jogo sob o aspecto cênico, sob a idéia de morte num trabalho em que é o tempo, vamos dizer, a grande base de desenvolvimento da música? Que relação é essa dessa música com esse tempo?


MG: Musicalmente falando, existe em nosso trabalho diversos elementos de música erudita, onde o tempo tem funções muito específicas. Agora, se eu for lançar um olhar puramente subjetivo a respeito, poderia desenvolver outros raciocínios. Penso, por exemplo, que as questões humanas sempre foram as mesmas. A morte, a perplexidade diante desse universo insondável, os mais caros e momentâneos prazeres dessa pequena existência, o amor cada vez mais fugidio.Todas elas inseridas em conceitos, filosóficos ou não, a respeito da passagem do tempo. Observamos em nosso trabalho esse homem contemporâneo, fragmentado, despedaçado, sob a óptica de uma tragédia grega. E aí concluímos que as grandes questões continuam sendo as mesmas. O diferencial pode ser a constatação de que talvez a derrocada da humanidade esteja mais próxima. Essas considerações são muito pessoais, você provavelmente desenvolverá outras.


SEM: Você fala em contradição, fala em fracasso, fala em finalizações, em perda, em morte. E eu penso: em que instância na música o silêncio aparece?


MG: Vou me referir especificamente a um dos silêncios, o que foi idealizado em “a piaf”. Nesse caso, sob um olhar existencialista, o silêncio tanto pode ser o descanso necessário para inúmeros gritos, para inúmeras angústias diante do inexorável, como pode simbolizar também o limbo que provavelmente existe entre a vida e a morte.


SEM: Estar na mesma situação de blake é estar inserido nesse cinema, nessa plástica, nesse movimento e nesse tempo que é a tua música?


MG: Sim, sem maiores elucubrações, creio que sim. Acredito que todas as concepções que tivemos acabaram ilustrando alguns dos significados possíveis desse verso do poema de Fiama, pertinentes à nossa música. Interessante a formulação da pergunta, pois “estar na mesma situação de blake” no contexto que você estabeleceu pressupõe estilo, estado de vida, posicionamento estético ou filosófico, etc. A força do verso, que pertence a um poema extraordinário, pode gerar uma série de interpretações, mas isso eu deixo para o ouvinte atento.


SEM: Eu queria te fazer uma última indagação: interpretar essa música tem um aspecto extremamente particular e complicado de colocação de voz? Se isso passa por uma experiência espiritual e como é isso... se isso é um ritual, se tem um ritual, se tem uma passagem... como é isso?


MG: Na medida em que a música significa para mim uma das poucas possibilidades de transcendência, sim. A vida é transitória, mas espero tolamente que pelo menos esse pequeno vestígio de minha existência possa permanecer. É importante dizer que, acima de qualquer referência artística, a necessidade de conceber um trabalho artístico e interpretá-lo era a única resposta viável para todo o meu desespero. Tento alcançar com isso o que deve estar fora dos meus limites humanos. Com esse enfoque, certamente chegarei à conclusão de que também é uma experiência espiritual. Em relação ao meu canto, quando a circunstância de colocá-lo em prática é especial aos meus olhos, é como se eu pudesse dizer: “Essa é uma das poucas oportunidades de impor o meu grito profundo, infelizmente mudo”.